30 de agosto de 2009

Informe-se para votar: Marina Silva em entrevista a Veja de 30.08.09


Entrevista

Marina imaculada

Politicamente correta, com biografia sem nódoas e uma doçura sem
par, a senadora verde diz por que deixou o PT e o que defenderá na
corrida à Presidência da República em 2010

Sandra Brasil

Foto: Lailson Santos (Veja)


A senadora Marina Silva, do Acre, causou um abalo amazônico ao Partido dos Trabalhadores. Depois de trinta anos de militância aguerrida, abandonou a legenda e marchou para o Partido Verde, seduzida por um convite para ser a candidata da agremiação à Presidência da República em 2010. Para o PT, o prejuízo foi duplo: não só perdeu um de seus poucos integrantes imaculadamente éticos, como ganhou uma adversária eleitoral de peso. Os petistas temem, e com razão, que a candidatura de Marina tire muitos votos da sua candidata ao Planalto, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Na semana passada, Marina, de 51 anos, casada, quatro filhos, explicou a VEJA as razões que a levaram a deixar o PT – e opinou sobre temas como aborto, legalização da maconha e criacionismo.

A senhora será candidata a presidente pelo Partido Verde?
Ainda não é hora de assumir candidatura. Há uma grande possibilidade de que isso aconteça, mas só anunciarei minha decisão em 2010.

Se sua candidatura sair, como parece provável, que perfil de eleitor a senhora pretende buscar?
Os jovens. Eles estão começando a reencontrar as utopias. Estão vendo que é possível se mobilizar a favor do Brasil, da sustentabilidade e do planeta. Minha geração ajudou a redemocratizar o país porque tínhamos mantenedores de utopia. Gente como Chico Mendes, Florestan Fernandes, Paulo Freire, Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, que sustentava nossos sonhos e servia de referência. Agora, aos 51 anos, quero fazer o que eles fizeram por mim. Quero ser mantenedora de utopias e mobilizar as pessoas.

Sua saída abalou o PT. Além da possibilidade de disputar o Planalto, o que mais a moveu?
O PT teve uma visão progressista nos seus primeiros anos de vida, mas não fez a transição para os temas do século XXI. Isso me incomodava. O desafio dos nossos dias é dar resposta às crises ambiental e econômica, integrando duas questões fundamentais: estimular a criação de empregos e fomentar o desenvolvimento sem destruir o planeta. O crescimento econômico não pode acarretar mais efeitos negativos que positivos. Infelizmente, o PT não percebe isso. Cansei de tentar convencer o partido de que a questão do desenvolvimento sustentável é estratégica – como a sociedade, aliás, já sabe. Hoje, as pessoas podem eleger muito mais do que o presidente, o senador e o deputado. Elas podem optar por comprar madeira certificada ou carne e cereais produzidos em áreas que respeitam as reservas legais. A sociedade passou a fazer escolhas no seu dia a dia também baseada em valores éticos.

A crise moral que se abateu sobre o PT durante o governo Lula pesou na decisão?
Os erros cometidos pelo PT foram graves, mas estão sendo corrigidos e investigados. Quando da criação do PT, eu idealizava uma agremiação perfeita. Hoje, sei que isso não existe. Minha decisão não foi motivada pelos tropeços morais do partido, mesmo porque eles foram cometidos por uma minoria. Saí do PT, repito, por falta de atenção ao tema da sustentabilidade.

Ou seja, apesar de mudar de sigla, a senhora não rompeu com o petismo?
De jeito nenhum. Tenho um sentimento que mistura gratidão e perda em relação ao PT. Sair do partido foi, para mim, um processo muito doloroso. Perdi quase 3 quilos. Foi difícil explicar até para meus filhos. No álbum de fotografias, cada um deles está sempre com uma estrelinha do partido. É como se eu tivesse dividido uma casa por muito tempo com um grupo de pessoas que me deram muitas alegrias e alguns constrangimentos. Mudei de casa, mas continuo na mesma rua, na mesma vizinhança.

No período em que comandou o Ministério do Meio Ambiente, a senhora acumulou desavenças com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Como será enfrentá-la em sua eventual campanha à Presidência?
Não vou me colocar numa posição de vítima em relação à ministra Dilma. Quando eu era ministra e tínhamos divergências, era o presidente Lula quem arbitrava a solução. Não é por ter divergências com Dilma que vou transformá-la em vilã. Acredito que o Brasil pode fazer obras de infraestrutura com base no critério de sustentabilidade. Temos visões diferentes, mas não vou fazer o discurso fácil da demonização de quem quer que seja.

Um de seus maiores embates com a ministra Dilma foi causado pelas pressões da Casa Civil para licenciar as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira. A senhora é contra a construção de usinas?
No Brasil, quando a gente levanta algum "porém", já dizem que somos contra. Nunca me opus a nenhuma hidrelétrica. O que aconteceu naquele caso foi que eu disse que, antes de construir uma usina enorme no meio do rio, era preciso resolver o problema do mercúrio, de sedimentos, dos bagres, das populações locais e da malária. E eu tinha razão. Como as pessoas traduziram a minha posição? Dizendo que eu era contra hidrelétricas. Isso é falso.

Se a senhora for eleita presidente, proibirá o cultivo de transgênicos?
Eis outra falácia: dizer que sou contra os transgênicos. Nunca fui. Sou a favor, isso sim, de um regime de coexistência, em que seria possível ter transgênicos e não transgênicos. Mas agora esse debate está prejudicado, porque a legislação aprovada é tão permissiva que não será mais possível o modelo de coexistência. Já há uma contaminação irreversível das lavouras de milho, algodão e soja.

O que a senhora mudaria no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)?
Eu não teria essa visão de só acelerar o crescimento. Buscaria o desenvolvimento com sustentabilidade, para que isso pudesse ser traduzido em qualidade de vida para as pessoas. Obviamente, é necessário que o país tenha infraestrutura adequada. Mas é preciso evitar os riscos e problemas que os empreendimentos podem trazer, sobretudo na questão ambiental.

Na economia, faria mudanças?
Não vou me colocar no lugar dos economistas. Prefiro ficar no lugar de política. Em linhas gerais, acho que o estado não deve se colocar como uma força que suplanta a capacidade criativa do mercado. Nem o estado deve ser onipresente, nem o mercado deve ser deificado. Também gosto da ideia do Banco Central com autonomia, como está, mas acho que estão certos os que defendem juros mais baixos.

No seu novo partido, o PV, há uma corrente que defende a descriminalização da maconha. Como a senhora se posiciona a respeito desse assunto?
Não sou favorável. Existem muitos argumentos em favor da descriminalização. Eles são defendidos por pessoas sérias e devem ser respeitados. Mas questões como essa não podem ser decididas pelo Executivo, e sim pelo Legislativo, que representa a sociedade. A minha posição não será um problema, porque o PV pretende aprovar na próxima convenção uma cláusula de consciência, para que haja divergências de opinião dentro do partido.

Os Estados Unidos elegeram o primeiro presidente negro de sua história, Barack Obama. Ele é fonte de inspiração?
Eu também sou negra, mas seria muito pretensioso da minha parte me colocar como similar ao Obama. Ele é uma inspiração para todas as pessoas que ousam sonhar. A questão racial teve um peso importante na eleição americana. Mas os Estados Unidos têm uma realidade diferente da do Brasil. Eu nunca fui vítima de preconceito racial aqui.

A senhora poderia se apresentar como uma candidata negra na campanha presidencial?
Não. É legítimo que as pessoas decidam votar em alguém por se identificar com alguma de suas características, como o fato de ser mulher, negra e de origem humilde. Mas seria oportunismo explorar isso numa campanha. O Brasil tem uma vasta diversidade étnica e deve conviver com as suas diferentes realidades. Caetano Veloso (cantor baiano) já disse que "Narciso acha feio o que não é espelho". Nós temos de aprender a nos relacionar com as diferenças, e não estimular a divisão. A história engraçada é que, durante as prévias do Partido Democrata americano, quando a Hillary Clinton disputava a vaga com Obama, um amigo meu brincou comigo dizendo que os Estados Unidos tinham de escolher entre uma mulher e um negro, e, se eu fosse candidata no Brasil, não teríamos esse problema, porque sou mulher e negra.

A senhora é a favor da política de cotas raciais para o acesso às universidades?
Há quem ache que as cotas levam à segregação, mas eu sou a favor de que se mantenha essa política por um período determinado. Acho que há, sim, um resgate a ser feito de negros e índios, uma espécie de discriminação positiva.

Mas a senhora entrou numa universidade pública sem precisar de cotas, embora seja negra, de origem humilde e alfabetizada pelo Mobral.
Sou uma exceção. Tenho sete irmãos que não chegaram lá.

Aos 16 anos, a senhora deixou o seringal e foi para a cidade, a fim de se tornar freira. Como uma católica tão fervorosa trocou a Igreja pela Assembleia de Deus?
Fui católica praticante por 37 anos, um aspecto fundamental para a construção do meu senso de ética. Meu ingresso na Assembleia de Deus foi fruto de uma experiência de fé, que não se deu pela força ou pela violência, mas pelo toque do Espírito. Para quem não tem fé, não há como compreender. Esse meu processo interior aconteceu em 1997, quando já fazia um ano e oito meses que eu não me levantava da cama, com diagnóstico de contaminação por metais pesados. Hoje, estou bem.

A senhora é mesmo partidária do criacionismo, a visão religiosa segundo a qual Deus criou o mundo tal como ele é hoje, em oposição ao evolucionismo?
Eu creio que Deus criou todas as coisas como elas são, mas isso não significa que descreia da ciência. Não é necessário contrapor a ciência à religião. Há médicos, pesquisadores e cientistas que, apesar de todo o conhecimento científico, creem em Deus.

O criacionismo deveria ser ensinado nas escolas?
Uma vez, fiz uma palestra em uma escola adventista e me perguntaram sobre essa questão. Respondi que, desde que ensinem também o evolucionismo, não vejo problema, porque os jovens têm a oportunidade de fazer suas escolhas. Ou seja, não me oponho. Mas jamais defendi a ideia de que o criacionismo seja matéria obrigatória nas escolas, nem pretendo defender isso. Sou professora e uma pessoa que tem fé. Como 90% dos brasileiros, acredito que Deus criou o mundo. Só isso.

A senhora é contra todo tipo de aborto, mesmo os previstos em lei, como em casos de estupro?
Não julgo quem o faz. Quando uma mulher recorre ao aborto, está em um momento de dor, sofrimento e desamparo. Mas eu, pessoalmente, não defendo o aborto, defendo a vida. É uma questão de fé. Tenho a clareza, porém, de que o estado deve cumprir as leis que existem. Acho apenas que qualquer mudança nessa legislação, por envolver questões éticas e morais, deveria ser objeto de um plebiscito.

Seu histórico médico inclui doenças muito sérias, como cinco malárias, três hepatites e uma leishmaniose. A senhora acredita que tem condições físicas de enfrentar uma campanha presidencial?
Ainda não sou candidata, mas, se for, encontrarei forças no mesmo lugar onde busquei nas quatro vezes em que cheguei a ser desenganada pelos médicos: na fé e na ciência.


Senadores querem dedicação exclusiva para professor da educação básica



Mais uma informação importante sobre a Educação Básica. Leiam texto a respeito em www.stellabortoni.com.br.

Aguardo comentários e posicionamentos nos blogs.

Abraços

Céu de Brasília




Passei aqui para fazer apologia ao céu mais lindo do Brasil.

Declamado por muitos poetas:


Beleza bonita de ver nada existe como o azul
Sem manchas do céu do Planalto Central
E o horizonte imenso aberto sugerindo mil direções
E eu nem quero saber se foi bebedeira louca ou lucidez.
Flávio Venturini

Ah, Céu de Brasília, francamente, você, quando capricha, meu coração fica sem argumento. Te adoro, você me acolhe e me protege como nenhum céu o faz, nem o céu capixaba maravilhoso de minha terra. É lindo ele, mas é de outra qualidade, outra especialidade. Sempre foi assim, já reparou? Desde a primeira vez, cheguei plebéia e saí daqui rainha. Você é uma gracinha, foi logo me premiando de estréia! Me tratas com muitas honras pra quem é só dois anos mais velha.
Elisa Lucinda

Esse imenso desmedido amor
Vai além de seja o que for
Passa mais além do céu de Brasília
Traço do arquiteto
Gosto tanto dela assim
Djavan


Um abraço gigantesco para todas/os as/os colegas de Gestar II.

A foto do post foi pega na Internet e é do Memorial JK, um dos monumentos mais visitados da capital.

Bom domingo!

17 de agosto de 2009

Projetos (in)úteis?

Foto: internet



Quando o muro separa uma ponte une
Se a vingança encara o remorso pune
Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta
E se a força é tua ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós, olha aí
Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto
De repente olha eu de novo
Perturbando a paz, exigindo troco
Vamos por aí eu e meu cachorro
Olha um verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós, olha aí
O muro caiu, olha a ponte
Da liberdade guardiã
O braço do Cristo, horizonte
Abraça o dia de amanhã, olha aí

Pesadelo
by Marcelo Tapajós e Paulo César Pinheiro



A notícia de que há um Projeto de Lei tramitando no Congresso - já foi aprovado pelo Senado - para que seja obrigatória a execução do Hino Nacional com hasteamento da Bandeira uma vez por semana em todas as escolas do país me fez relembrar meus tempos de menina. Na época, década de 70/80, era ditadura militar e tínhamos aulas de Organização Social e Política Brasileira, Educação Moral e Cívica e, uma vez por semana, entoávamos o Hino no pátio durante o hasteamento de nossa Bandeira. Eu nutro um amor especial pela nossa Bandeira. Ela sempre me fascinou. Certamente um sentimento implantado por aquela época tão terrível de nossa história, em que éramos obrigados a cumprir protocolos sem o mínimo direito de abrir a boca para questionar. Aprendíamos todos os símbolos da pátria - boa herança da ditadura? Alguns artistas, por exemplo, compunham músicas de protesto disfarçadas, porque, se pegos, eram presos - como Cálice, de Chico Buarque. Adotavam pseudônimos para compor, como Julinho da Adelaide, também de Chico Buarque. Muitos sumiram "misteriosamente" à época, como Honestino Guimarães, estudante da UnB. Naquela época, ninguém nos contou do lema positivista inscrito na faixa central da Bandeira - Ordem e Progresso. Era o que vivíamos. Era o que esperavam de nós. Sem maiores (ou menores) discussões. Muitas pessoas gostam de afirmar que brasileiro não é patriota. Eu questiono essa suposta falta de patriotismo atribuída aos brasileiros só porque, diferentemente dos norte-americanos, cada um de nós não tem hasteada a Bandeira em nossas portas ou janelas?! É claro que, depois de 20 anos de tortura e submissão, as pessoas nutriram sentimentos de "liberdade" extrema e procuraram se distanciar ao máximo de tudo que relembrava aqueles tempos - acabaram, nas escolas, as disciplinas de OSPB, EMC e a obrigação de entoar o Hino e hastear a Bandeira; os protestos por liberdade de expressão já não faziam mais tanto sentido. Agora, vejo a possibilidade de retorno da cerimônia cívica nas escolas com um pouco de receio, mas também com a esperança de que isso reforce a democracia e a necessidade de se buscar direitos, de se tornar um cidadão mais crítico e consciente, especialmente ao escolher os representantes, pois estamos em outros tempos e as lutas agora são/devem ser outras. Mas os fantasmas de outrora ainda rondam o ideário brasileiro e as ações de muitos que se dizem representantes do povo também continuam como daquela época. Se o Projeto vingar, caberá ao professor exercer o papel de conscientizador, de democratizador do acesso a toda e qualquer informação sobre nossa história - passada e recente. O conhecimento aumenta as chances de desenvolvimento de uma nação. O conhecimento possibilita o surgimento da criticidade. Prefiro ver com bons olhos essa ideia. Prefiro acreditar que isso será bom para a comunidade escolar.

Notícia sobre o Projeto de Lei aqui.

7 de junho de 2009

Informações importantes

Pessoal, seguem informações importantes sobre a bolsa.
Abraços,
Carol
+++++++++++++++++++++
Colegas,
Abaixo, repasso um sumário das primeiras informações que me chegaram ontem sobre as bolsas do Gestar II. Devemos repassar essas Informações aos formadores locais (estaduais e municipais) imediatamente:
1. As bolsas do Gestar II serão de R$400,00 (10 parcelas).
2. Todos os formadores locais em atividade estão aptos a recebê-la.
3. Os coordenadores só poderão receber bolsa se estiverem atuando como formadores.
4. Se algum formador local está devendo a ficha, deve enviar os dados por e-mail (
gestar@unb.br ) e
a ficha posteriormente pelo correio; os dados por e-mail, para garantir a bolsa de junho (que sairá no
inicio de julho), deverão chegar até 25 de junho. Pelo correio, pode chegar depois dessa data.
5. Os formadores-UnB deverão informar para os coordenadores-UnB quem está em dia com as atividades para receber a bolsa mês a mês.
6. Serão 10 parcelas a começar em julho; portanto; continuarão recebendo depois de dezembro.
7. Pode receber a primeira parcela quem participou da Formação Inicial e ainda está no
programa, ou seja, tem relatado, ao formador-UnB, suas atividades com os cursistas.
8. O trabalho de autorização será mensal. O MEC sugere que exijamos um relatório mensal dos formadores locais, que podem se referir a meses já vencidos. Cabe ao formador-UnB receber esses relatórios e encaminhar, ao coordenador-UnB, todo dia 20, a lista de quem vai receber a bolsa naquele mês. Logo, no dia 20 de junho aguardo a primeira lista.
Abraços,
Dioney

31 de maio de 2009

Servidor público ou professor?


Esse texto é resultado de algumas reflexões a respeito da ação pedagógica, especialmente na escola pública. São reflexões inciais, por isso não vou entrar em maiores detalhes filosóficos e jurídicos. É apenas um olhar nascido de uma conversa sobre o trabalho.
***
Nós, servidores públicos, tivemos um conjunto de atribuições e responsabilidades em Regime Júrido Único instaurados em 1990 com a Lei 8112. Mas, ao que parece, não nos foi enfatizado o verdadeiro sentido do termo "servidor público". Alessandro Eloy Braga, colega educador, já fez reflexão brilhante a esse respeito. Ele mostra que o sentido real do substantivo "servidor" foi totalmente esquecido por aqueles milhares, ou até milhões, de brasileiros que querem ingressar no serviço público, em qualquer esfera. E eu acrescento que o adjetivo "público" nunca foi assimilado em nossa cultura em seu sentido denotativo. Não foi incorporado em nossa sociedade o sentimento de coletividade, de comunhão, de conjunto. Ao contrário, disseminou-se a noção de que público é o que pertence ao governo e o governo... É algo distante, bem distante de nós. Passamos, então, a lidar com a questão do público como o que é privativo ao outro e "eu não tenho nada a ver com isso".
***
Além dessa torpe visão, tornou-se um vício ser servidor público para manter-se no emprego custe o que custar. É a tal estabilidade, outra palavra muito mal interpretada por nós, que nos oferece esse privilégio. Aquilo que foi conquistado a duras penas e legalizado na 8112/90 como um benefício de categoria passou a ser um malefício público. É. A estabilidade garante ao servidor o direito de, após o estágio probatório de 3 anos, permanecer no cargo. A não ser por crimes previstos na Lei. O que vemos é que o servidor tem de fazer bastante esforço se quiser ser exonerado ou demitido. Mas bastante esforço mesmo!
***
E o que isso tudo tem a ver com a ação pedagógica do professor da escola pública? TUDO! Nós, professores da escola pública, confundimos estabilidade com acomodação. Nos esquecemos de que não devemos apenas ensinar conhecimentos advindos do saber científico, ética, moral, respeito, comprometimento consigo e com o outro, mas também, e em primeiro lugar, devemos dar exemplo de tudo o que ensinamos. Nos esquecemos o verdadeiro sentido de estarmos desenvolvendo um trabalho totalmente diferenciado do de um técnico da Receita Federal ou de um agente do Detran, por exemplo. Estes também devem ter consciência do que significa servir o público. Mas a natureza da atividade que cada um desses profissionais desenvolve é infinitamente diferente da desenvolvida pelo professor.
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O fato de todos nós servidores públicos nos acomodarmos em virtude de nossa estabilidade traz muitos malefícios a nós mesmos porque temos péssimos serviços públicos: hospitais públicos, INSS, Polícias, Receita Federal, Tribunais, Detran, Procon, escolas públicas, etc. Ao ponto de termos de pagar duplamente pelos nosso direitos básicos, previstos constitucionalmente - saúde, educação, segurança, habitação - se quisermos ter o mínimo de dignidade. E quem não pode pagar?
***
Este texto serve a um questionamento surgido ontem quando de uma discussão sobre trabalho e transformação social. Por meio do trabalho, transformamos/dominamos a natureza e criamos cultura. Essa também é uma das razões por sermos diferentes dos animais - eles sobrevivem e isso não transforma o meio. Então, o trabalho é uma forma de dialogarmos com nossa existência, nosso mundo, nossa natureza humana e de modificar tudo ao nosso redor. Consumismo a parte, trabalhamos não apenas para sobreviver, mas para transformar e construir o mundo. Especialmente o professor, consciente ou não do poder que tem, querendo ou não, trabalha para transformar e construir o mundo ao seu redor. Resta saber se os vícios de um cultura depreciadora do real sentido de ser servidor público já impregnaram a maioria de nós. Resta saber se temos agido muito mais como reprodutores da cultura nepotista ou como contribuidores para uma sociedade mais consciente e crítica. Resta saber se temos realmente servido o público como nos é obrigatório a partir do momento em que fomos selecionados em um concurso público ou se estamos bastante interessados em receber um salário no final do mês sem importar o que fizemos com nossa obrigação já que existe uma estabilidade que me protege de um exercício irregular da profissão. Resta saber quem realmente somos. Resta saber quem queremos ser. E resta saber quem não devemos ser.


Caroline Cardoso
29.05.2009
Texto originalmente publicado aqui

26 de maio de 2009

VESTIBULAR PARA OS PARLAMENTARES

Há oito dias aguardo para escrever este post. Na verdade, quero compartilhar com o leitor a queda de mais um dos meus (pre)conceitos. Explico: sempre achei que muitos, para não dizer a maioria, dos programas de humor da TV brasileira são de uma má qualidade e de um mau gosto impressionantes. [Não estou defendendo os estrangeiros. Os programas de humor ingleses ou americanos são péssimos! Depois explico isso.] Também acredito que fazer comédia, e de qualidade, não é para qualquer um. Mas há um quê de apelação em muitos desses programas brasileiros, seja para o sexo, seja para a ridicularização das minorias, seja para o desprezo ao lado cítrico-sarcástico-inteligente que deve ser a essência do humor. E, obviamente, o humor deve ser contextualizado. As piadas inglesas do Mister Bean são um horror para mim. Não as entendo [nem quero entender], por isso são tão sem graça. Mas segunda-feira passada assisti, pela primeira vez, ao CQC. E, para minha surpresa, eles fazem bom humor. Gosto muito do Tas, que comanda o programa. Ele é um rapaz cult. E isso deu um ar mais jornalístico, digamos assim, ao programa. Ao menos no quadro que vi e que reproduzo ali embaixo, eles fizeram algo bastante interessante e inédito nos programas de humor: entrevistaram os políticos, no Congresso, a respeito de conhecimentos elementares para qualquer cidadão eleito para representar o povo. E, para surpresa geral, se nossos parlamentares fossem fazer um vestibular para concorrer ao cargo por meio dos próprios conhecimentos, SURPRESA! Muitos REPROVARIAM. Fiquei impressionada com as atitudes, com a falta de vergonha dos senhores deputados e senadores pela própria ignorância. Não sei o que é pior, os desvios serem cometidos por alguém tão ignorante ou... O mais legal do programa é que o Gentili, entrevistador CQC, não precisou rechaçar os nobres colegas enternados para nos fazer morrer de chorar com tanta incongruência. Os próprios parlamentares são a piada.

Analogamente, fiquei pensando na minha profissão. Tanto que nós professores brigamos e lutamos para que nossos alunos saiam cidadãos conscientes e críticos, para que as comunidades mais carentes tenham acesso a uma Educação integral e de qualidade e para que nosso país seja mais bem representado. Como as pessoas ainda conseguem se tornar massa de manobra de gente que mal sabe o valor do salário mais pago no país? Como as pessoas ainda conseguem votar nesses homens de terno vendo tanta baboseira saindo da boca deles? Como nós ainda conseguimos nos sentir REPRESENTADOS por esse bando de ignorantes? Eu só tenho um conselho, que se fosse bom, seria vendido, não dado: ESTUDEM, NOBRES PARLAMENTARES. ESTUDEM! Eu estudo e não voto em ninguém há 6 anos. E, pelo jeito, vou continuar sem votar.



Caroline Cardoso
25.05.2009
Texto originalmente publicado
aqui